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Minorias sexuais de Uganda, ILGA, Coalisão Gay e Lésbica do Quênia, os diferentes grupos desfilam
Foro Social Mundial

in KENYA, 19/02/2007

« Respect for all ! » UM OUTRO MUNDO é POSSIVEL...

Responsável de projetos junto à ILGA , federação mundial dos grupos LGBT, Stephen Barris tomou parte, nos fins deJaneiro, do primeiro Foro Social Mundial organizado na Africa mais precisamente em Nairobi. Um acontecimento que coincidiu com o “coming out” da comunidade LGBT queniana.


Alter ? Alter mondialista ?
O Foro Social Mundial de Nairobi, ao menos para mim, foi uma experiência da Africa, do Quênia. Não que a iniciativa tenha sido especialemment bem acolhida pelo Quênia. Poderia-se mesmo dizer que o país ignorou gentilmente o evento. A mídia não explicou nada à população sôbre o acontecimento e, à medida que o Foro avançava, se via que poucas pessoas em Nairobi podiam compreender o que é que reunia 50 000 pessoas às portas da capital. Mas suficientement longe e enfurnado dentro de um estádio de futebol para evitar que esta cidade caótica, poluída e ocupada a sobreviver ou a cuidar dos seus negócios seja objeto de um delírio revolucionário ou de alguma tomada de consciência social.

Segundo os “antigos”, os fiéis de Porto Alegre, Mumbai e Caracas, Nairobi e seu Foro não vibravam da mesma energia. No entanto todos os ingredientes estavam reunidos : o Foro social continuava a ser o incrível acelerador de idéias, uma formidável “incubadora onde cada um@ levava sua cultura para vê-las germinar”

Mas êste Foro parecia mais uma cultura fora da terra. Fora da cidade, como foi dito, mas também sôbre um terreno ao qual faltava tradição sindicalista, protesto social, espaço cidadão adulto e seguro de si.

Para mim, aos trinta anos idealistas, europeu do Oeste, habituado aos desvios de nossas sociedades capitalistas mas curioso de outros mundos possíveis, o Foro foi uma surprêsa e depois uma primeira tomada de consciência. Os movimentos contestatários fortes estando ausentes, as ONGs de ajuda ao desenvolvimento ocupavam o espaço, a igreja sendo a primeira delas.

E então, brotou uma extraordinária alegria...mesmo se a missa era dita 3 vêzes por dia durante o Foro, nem tudo era dito nelas: assim o Foro ia ser o espaço de liberdade e diversidade que eu esperava.

ONDE ESTá A TENDA ?
O espaço reservado pela Coalisão Gay e Lésbica do Quênia (GALCK) simplesmente não tinha sido previsto! ...intencional? O momento não se prestava à polêmica, neste domingo de estréia difícil do Foro: ocupamos a primeira tenda disponível encontrada!

Além do mais a ocasião era importantissima para a GALCK e seus membros.

Formada no ano passado por oito associações gays e lésbicas de Nairobi a Coalisão fizera uma primeira e tímida aparição no desfile do 1° de dezembro 2006, no qual 5 temerári@s arboravam uma banderola, e o Foro deveria ser o ponto culminante de uma campanha na qual o primeiro registro legal de uma associação LGBT no Quênia constituía um dos primeiros sucessos.

Judith, Loury, Pauline, Ivy, Peter… os jovens que frequentam as reuniões de preparação do Foro, uns quarenta agrupad@s em torno de Annika, admirável voluntária norueguêsa da associação Queer Solidarity, e de Angus, responsáveldo projeto MSM* de um centro de prevenção da Aids, são conscientes dêste fato? Suas presenças ao Foro equivale à um “coming out” nacional para a comunidade LGBT queniana.

Batisada Q Spot ** a tenda fará sensação. Segundo os rumores,será mesmo um dos espaços mais comentados do Foro! E também um dos mais visitados.

A liberdade com a qual se exprimem @s militantes convidad@s à participar no debates realizados na tenda é realmente extraordinária e para o público, curioso, intrigado, raramente hostil, a surprêsa é grande.

A homossexualidade não é africana? Uma militante nigeriana se rememora de como as pessoas da sua terra falavam de sexualidade e prazer quando ela era mais jovem. Ela lembra as palavras que existiam então para falar do amor entre pessoas do mesmo sexo, explica como os missionários censuraram as palavras para negar e esconder esta realidade e interroga o público: a igreja chegou aqui recentement, quem é ela para declarar o que é e o que não é african@?

O público escuta com atenção @s militantes da Africa do Sul explicar o sucesso da campanha pelo casamento no país.

Um jurista da India retraça a história das leis anti-sodomia na Commonwealth e provoca momentos de grande hilaridade com a leitura da correspondência dos juízes que tentam, durante anos, encontrar uma definição a mais ampla possível de sodomia, com uma riqueza de detalhes pelo menos surpreendente, afim de que estas leis possam englobar todos os atos ligados à homossexualidade!

E é a vez do público de saber que tais leis não existiam antes de serem impostas pelo Reino às suas colônias.

A presença da Comissão Queniana dos Direitos Humanos também é surpreendente, no entanto ela mostra dificuldades em reiterar, publicamente e em termos simples a sua resposta escrita à GALCK : que a Comissão se opõe à tôda lei discriminatória inclusive a lei que condena a sodomia à 14 anos de prisão.

Mas o espetáculo se desenrola também na sala, sempre repleta... Público em maioria jovem que vem para constatar a existência destes gays e lésbicas, african@s como êles e elas. Círculos de rencontro são improvisados. Ao redor de um@ militante 10,20 até 30 pessoas e as perguntas, os comentários que se precipitam :”tu é gay? verdade??” "Isto aqui não existe...”, “Como é que isto te aconteceu?”... “Deus criou Adão e Eva e não Adão e Steve!” . E principalmente “Como é que vocês fazem? O quê ? Sexo ! “

Uma vez passado o momento de curiosidade @s jovens tentam realmente de compreender. Rimos junt@s da liberdade de tom e de expressão, sem dúvida rimos de poder falar de sexualidade, de prazer pois @s jovens militantes quenian@s não hesitam à replicar às perguntas : “..e tu, como é que tu faz amor?”

Infatigávies @s jovens... e é difícil fazê-l@s partir, quando p. ex. temos que organizar entre nós o atelier de pintura das bandeirolas e decidir dos slogans para desfilar ao redor do estádio em companhia das feministas. 3 desfiles públicos numa semana!

O entusiamo é autêntico : é como uma primeira Pride sem dúvida multiplicado pelos anos de mêdo e de proibições.

Outra emoção para os gays e as lésbica do Quênia : domingo à noite, a GALCK organisa uma festa, com convite. A discoteca é de tamanho médio. Quant@s seremos? 200,300 talvez e meus nov@s camaradas de luta não acreditam no que vêem: “Nunca se viu tanta gente... e tem mesmo gente que não conhecemos!” acrescentando : “evidente que vamos organizar outras festas!”

Cerimônia de encerramento
Quinta-feira à tarde. Discursos bem pronunciados que soam falso e que vêm preencher as lacunas técnicas entre os grupos musicais que se sucedem durante quase 6 horas.O público presente decepciona: alguns milhares para um concerto gratuito num parque, no centro da cidade de 3 milhões de habitantes.

A GALCK está presente mas as nossas bandeirolas são pouco visíveis no meio da multidão. Pedimos a palavra para ler um discurso mas o programa é pesado : alguém pega o nosso discurso, sem garantia de leitura. Nos minutos que seguem nosso discurso em nome dos “gays e lésbicas da Africa” é anunciado... mas não apresentado... Uma hora, duas, três, Kasha uma ativista de Uganda e eu decidimos de ir aos bastidores saber o que se passa.

O apresentador parece em pânico diante de nossa insistência. Sim, êle vai ler o texto mas...onde é que está o texto? Eu olho ao redor e descubro com irritação o discurso no chão, como se tivesse sido jogado fora. E passo ao ataque de novo: quando é que é a nossa vez?

Kasha e eu não acabamos de esperar...nervosa ela fuma um cigarro. Uma hora e meia passa. E finalmente é a vez de Kasha. Eu fico nos bastidores: um europeu em cena, branco além de tudo para falar em nome de gays e lésbicas da Africa faria a intervenção perder todo crédito.

Com um pouco de cabotinagem tínhamos decidido de lançar o discursso com slogans contestatários “universais” e foi com o grito “Respect for all, Human Rights for all” que Kasha começou à arengar o público. Que responde de maneira entusiasta. O efeito funciona.

Kasha continua: "Eu falo en nome da Coalisão gay e lésbica do Quênia, da Coalisão das Lésbicas da Africa,das minorias sexuais de Uganda, da Federação Internacional Gay e Lésbica...”.

Surpreendido o publico que até agora dansava, se mostra confuso...e então punhos se elevam e alguns gritos explodem “Não!Não!”.

Kasha continua. O público se mostra ainda mais agressivo. O apresentador, sem dúvida embaraçado, tenta recuperar o microfone, mas Kasha continua seu discurso: “Gente, gente, se vocês não estão de acôrdo, se vocês não compreendem a homossexualidade, ao menos estarão de acôrdo comigo sôbre um pricípio: devemos aprender à viver junt@s, gays e lésbicas também têm o direito de viver em paz na Africa!”

Diante de alguns milhares de pessoas Kasha se ajoelha e improvisa :”por favor, tolerância!” .

Enquanto isto o meu coração bate à mil, meu estômago está revirado, ouso apenas imaginar como Kasha se sente que neste momento ela já sai da cena.

O ambiente é elétrico, tudo vai muito depressa, dois homens perseguem Kasha, bastidores, punhos cerrados, 2 rastas, dreadlocks e cool attitude, “Fogo”, os mesmos que à pouco dansavam em cena, « Fire on homosexuals ! ». “Fogo! Ao fogo @s homossexuais”! Kasha se lança numa corrida, eu corro também para detê-la. O instinto me diz de não correr no meio da multidão, o seu lhe diz exatamente o contrário. Eu consigo alcançá-la.Voltamos ao grupo caminhando e Kasha retoma confiança enquanto as pessoas ao redor, comovidas, manifestam o seu apôio.

Porque os organizadores não tomam a sua defesa? Como podem ter ignorado o acontecimento após 5 dias de Foro Social Mundial e horas de gritos que “um outro mundo é possivel”?

O dia depois do Foro

A GALCK se reúne no dia seguinte. Angústias e ressaca. O balanço político é contrastado.

A ILGA fez inscrever a depenalisação das relações homossexuais nas revindicações do Foro, o qual apesar do episódio infeliz durante a cerimônia de encerramento sempre incluiu nelas o respeito da diversidade sexual.

No ano que vem, na ausência física do Foro, o slogan previsto será :” In a diverse world, equality comes first ”ou seja :” num mundo diversificado, nosso objetivo principal é a igualdade”.

No princípio da semana Desmond Tutu declarava diante de outros religiosos africanos reunidos no Foro que “a Africa deve enfrentar dois males : a predominância masculina e a homofobia”.

Quase como um eco, terça-feira um imam interpelava o govêrno pedindo de nos pôr na prisão dentro de 48 horas. Embaraço e silêncio dos religiosos, o ultimatum tem vida curta.

Os jornalistas óbviamente se encarregaram de comunicar o sucesso do stand mas o trabalho de desinformação também começou: "os gays e as lésbicas do Quênia querem o casamento". Nossos avanços ocidentais, a surprêsa sul-africana passaram por là: para a mídia, para os políticos e consequentement para o público, direitos GLBT significam “casamento”. Realistas, @s membros da GALCK não esperam tanto.

@s jovens que responderam ao jôgo das entrevistas lamentam que a mídia publiquem sómente os aspectos mais sensacionalistas das respostas, sem mencionar os seus aspectos mais politizados.

Judith se angustia pois sua foto foi impressa assim como o nome de sua escola e indicações sôbre a sua classe...O grupo teme por sua segurança pessoal. Deveria ela se ausentar por uma quinzena de dias?

Durante a semana, sem dúvida entusiasmado pela energia do Q Spot, Loury se ultrapassa: coming out nacional... e familial, em direto pela TV. Seu tio exige desculpas públicas: que Loury repasse à télévisão, que se declare doente e aceite de se tratar... ou a família pára de financiar os seus estudos. O que fazer? Como ajudá—l@s ?

O grupo decide, unânime, de retomar o contrôle da situação e não conceder mais entrevistas antes da próxima reunião, dentro de um mês. Os sentimentos são mesclados: estupefação e alegria diante do que ousaram mas também consciência crescente do perigo e das responsabilidades à assumir diante da campanha que virá. @s militantes de Uganda, convidad@s pelo grupo ao foro, já pensam em organizar uma campanha similar quando da próxima reunião internacional da Commonwealth, à Kampala.

Eu me espanto com a coragem del@s. Como explicar a moleza dos nossos movimentos ocidentais e sua indiferença face à injustiça nos outros lugares? Aqui, lá, trata-se dos mesmos desejos de Vida e Liberdade, da mesma luta.

Como não se sentir solidári@ e possuíd@ pela mesma esperança?

Stephen Barris, 10/02/2007.
International Lesbian and Gay Association, www.ilga.org

* MSM, abreviação utilisada na terminologia da prevenção da Aids : Men having Sex with Men. HSH, Homens tendo relaçõ es sexuais com outros homens sendo a tradução brasileira.

** Ponto Queer, para “diferente” mas também em referência à uma outra abordagem política da diversidade sexual que quer ir mais longe do que as identidades sexuais.

Traduçao B.-Giselda Fernandes
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