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Pan Africa ILGA Apinda Mpako, Pan Africa ILGA
anonymous contributorPublicado anonimamente. (Português)

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Um Menino Para Ser Sacrificado

in MOROCCO, 27/03/2012

No Marrocos dos anos 1980, onde a homossexualidade, evidentemente, não existia, fui um garotinho afeminado, um menino que devia ser sacrificado, um corpo humilhado que carregava todo tipo de hipocrisia, tudo o que permaneceu não dito.

Quando eu tinha 10 anos, embora ninguém falasse sobre isso, eu sabia o que acontecia aos garotos como eu em nossa sociedade emprobrecida: eram vítimas certas para o uso, consentido por todos, como meros objetos sexuais de homens frustrados. E eu sabia que ninguém me salvaria - nem mesmo meus pais, que certamente me amavam. Também para eles eu era uma vergonha, uma pessoa imunda. Um "zamel".[1]

Como todo o mundo, eles me forçaram a um terrível e irrevogável silêncio, para morrer um pouco mais a cada dia.

Como uma criança que ama seus pais, seus muitos irmãos, sua cultura operária, sua religião - a islâmica - pode sobreviver a este trauma? Ser molestado e atormentado por conta de algo que outros viram em mim - algo como o modo de mover minhas mãos, minhas inflexões vocais. Um modo de andar, minha postura. Uma intimidade fácil com as mulheres, minha mãe e minhas muitas irmãs. Ser incluso na categoria de vítima como aqueles meninos "emo" de cabelos compridos e jeans skinny encontrados mortos recentemente na ruas do Iraque, com seus crânios esmagados.

A verdade é que eu não sei como sobrevivi. Tudo que me restou é um gosto pelo silêncio. E o sonho, nunca realizado, de que alguém me salvaria. Agora, aos 38 anos, posso afirmar sem ostentações: ninguém me salvou.

Já não me lembro mais da criança, do adolescente que fui. Sei que eu era afeminado e consciente de que ser "daquele jeito" era errado. Deus não me amava. Eu havia me desviado do caminho. Ou assim me fizeram acreditar. Não apenas a minha família, mas também toda a vizinhança. E aprendi minha lição perfeitamente. De modo que, bem no fundo, eu me dei por vencido. Foi isso que aconteceu.

Eu mal havia completado 12 anos e, na minha vizinhança, já era conhecido como "a mocinha". Mesmo aqueles com quem eu insistia em jogar futebol usavam esse apelido, esse insulto. Até os adolescentes que participavam dos mesmos jogos sexuais que eu. Eu não era mais criança. Meu corpo estava mudando, esticando, tornando-se o corpo de um homem. Mas os outros não me viam como um homem. A imagem que eles refletiam de mim era estranha e incompreensível. Multiplicavam-se as tentativas de estupro e abuso.

Eu sabia que não era bom ser como eu era. Mas o que eu poderia fazer? Mudar? Falar com minha mãe, meu irmão mais velho? E dizer-lhes o que exatamente?

Tudo aconteceu em uma noite de verão de 1985. Fazia muito calor. Todos tentávamos, em vão, dormir. Eu também estava acordado, deitado no chão ao lado das minhas irmãs, minha mãe bem próxima. De repente, chegaram até nós vozes familiares de homens bêbados. Todos nós as ouvíamos. A família toda. A vizinhança toda. O mundo inteiro. Esses homens, que todos nós conhecíamos muito bem, gritavam: "Abdellah, mocinha, desça aqui. Desça. Acorde e desça. Todos nós desejamos você. Desça, Abdellah. Não tenha medo. Não vamos te machucar. Queremos apenas fazer sexo com você."

O homens ficaram gritando por um longo tempo. Meu apelido. Seus desejos. Seus crimes. Eles disseram tudo o que não tinha sido dito no mundo muito silencioso e respeitoso em que eu vivia. Mas, então, eu estava longe de entender, a partir de qualquer análise, que o problema não era eu. Eu estava simplesmente amedrontado. E esperava que meu irmão mais velho, o meu herói, levantaria e retrucaria a eles. Que ele me protegeria, ao menos com palavras. Eu não queria que ele brigasse com os homens - absolutamente. Tudo o que eu queria era que ele dissesse essas poucas e simples palavras: "Vão embora! Deixem meu irmãozinho em paz."

Mas meu irmão, o monarca absoluto de nossa família, não fez nada. Todos viraram as costas para mim. Todos me mataram naquela noite. Não sei onde encontrei a força, mas não chorei. Apenas apertei meus olhos um pouco mais forte. E fechei, com o mesmo movimento, tudo o mais em mim. Tudo. Eu nunca mais fui o mesmo Abdellah Taïa depois daquela noite. Para salvar minha pele, eu me matei. E foi assim que eu fiz.

Comecei por manter minha cabeça baixa o tempo todo. Cortei todas as relações com as crianças da vizinhança. Alterei meu comportamento. Mantive-me a mim mesmo sob vigilância: sem mais gestos femininos, sem mais voz doce, sem mais passar o tempo com as mulheres. Sem mais nada. Tive de inventar um novo Abdellah. Debrucei-me sobre essa tarefa com grande determinação e com a precepção de que aquele mundo não era mais o meu mundo. Mais cedo ou mais tarde, eu o deixaria para trás. Eu cresceria e encontraria a liberdade em outro lugar. Mas, enquanto isso, eu teria de tornar-me teso. Muito teso.

HOJE sinto saudades do pequeno e afeminado Abdellah. Ele e eu dividimos um corpo, mas não me lembro mais dele. Ele era inocência. Eu sou apenas intelecto. Ele era insipiente. Eu sou esperto. Ele era espontâneo. Eu estou confinado a uma luta constante comigo mesmo.

Em 2006, sete anos após ter mudado para a França, e depois de meu segundo livro "Le rouge du tarbouche" (O vermelho do fez [2]) ter saído no Marrocos, eu também saí (do armário) para a imprensa marroquina, em árabe e francês. Escândalo, e apoio. Então, diante do silêncio de meu irmão e das lágrimas de minha mãe ao telefone, publiquei na TelQel, a bravíssima revista marroquina, uma carta aberta intitulada "Homossexuality Explained to My Mother" (Homossexualidade Explicada Para Minha Mãe). Ela morreu no ano seguinte.

Não sei onde encontrei a coragem para me tornar escritor e usar meus livros para impor minha homossexualidade ao mundo da minha juventude. Para fazer justiça ao pequeno Abdellah. Para nunca esquecer o trauma que ele e todos os homossexuais árabes como ele sofreram.

Agora, mais de um ano depois do início da Primavera Árabe, precisamos lembrar novamente dos homossexuais. Finalmente, o mundo árabe conscientizou-se de que precisa inventar um indivíduo novo e livre, sem o apoio de seus líderes megalomaníacos. Os homossexuais árabes também estão participando dessa revolução, vivam eles no Egito, no Iraque ou no Marrocos. Eles também são parte desse processo de libertação política e individual tão urgentemente necessário. E o mundo deve dar-lhes apoio e proteção.

 

Notas

[1] Zamel - palavra árabe que designa pederasta; pejorativo para homossexual.

[2] Fez - barrete cônico usado por certos povos do Oriente Médio e da África; aquele pequeno "chapéu" vermelho muito visto em filmes quando aparece um turco ou marroquino.

 

Abdellah Taïa é autor do romance "An Arab Melancholia". Este ensaio foi traduzido por Edward Gauvin do francês para o inglês.

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